O ser humano tem uma capacidade extraordinária de criar narrativas para justificar seus desejos e resistências. Mais do que agir racionalmente, buscamos coerência interna para sustentar nossas escolhas, mesmo quando sabemos, no fundo, que essas escolhas nos afastam de nossos objetivos e do que realmente queremos para nós. Esse fenômeno pode ser compreendido tanto pela psicanálise quanto pela filosofia, pois ambos os campos estudam como construímos nossa percepção da realidade e de nós mesmos.


Freud e os Mecanismos de Defesa: Quando o Ego Protege o Vício


Na psicanálise freudiana, há um conceito essencial para entender esse processo: os mecanismos de defesa do ego. São estratégias inconscientes que utilizamos para evitar o desconforto psíquico que surge quando nossas ações não condizem com nossos valores ou aspirações. Entre os mais comuns nesse contexto, encontramos:

Racionalização: A pessoa cria justificativas lógicas e aparentemente racionais para continuar agindo de forma autodestrutiva. Ela pode dizer, por exemplo, que “a vida é muito curta para se privar dos prazeres da comida”, ou que “todas as dietas são insustentáveis”, mesmo quando há evidências científicas que apontam o contrário.

Projeção: Em vez de reconhecer sua dificuldade pessoal em lidar com mudanças, atribui o problema a algo externo. “Esses especialistas só querem vender dietas da moda”, “isso é fake science”, “essa restrição toda não pode ser saudável”.

Negação: Simplesmente recusa-se a enxergar os impactos reais de suas escolhas. “Não é bem assim”, “meu avô comeu pão e açúcar a vida inteira e viveu até os 90”, “exageram demais esses estudos”.


Esses mecanismos servem para aliviar a angústia do conflito interno. Afinal, se admitirmos que precisamos mudar, seremos forçados a sair da zona de conforto, a encarar a frustração de um desejo não atendido no imediato.


Nietzsche e a Moral do Rebanho: O Medo de Sair da Manada


Nietzsche falava sobre a “moral dos fracos”, um conceito que se encaixa perfeitamente nesse contexto. Ele afirmava que a sociedade, ao longo do tempo, criou narrativas para justificar a mediocridade e a falta de esforço. Em vez de encorajar o crescimento e a superação, passamos a glorificar o conformismo e a vitimização.


No campo da alimentação e da saúde, isso se manifesta de forma evidente: qualquer abordagem que exija autodisciplina é taxada de “radical”, “exagerada” ou “insustentável”. Aqueles que fazem escolhas conscientes são vistos como “neuróticos” ou “extremos”, enquanto aqueles que seguem impulsos e vícios são considerados “equilibrados” e “realistas”. Essa inversão de valores é a essência da mentalidade de rebanho: nivelar todos por baixo para que ninguém tenha que lidar com o desconforto de mudar.


Lacan e o Desejo: O Verdadeiro “Eu Quero” vs. O “Eu Digo Que Quero”


Jacques Lacan nos ensina que há uma diferença fundamental entre o desejo verdadeiro e o desejo imaginário. Muitas vezes, dizemos que queremos algo — emagrecer, ter mais saúde, ser mais disciplinados —, mas nossas ações demonstram o contrário. Isso porque o desejo real não se encontra apenas no discurso, mas no que de fato estamos dispostos a fazer para conquistá-lo.


Se alguém diz que quer emagrecer, mas se recusa a abrir mão de hábitos prejudiciais, seu desejo real não é emagrecer, mas manter-se confortável dentro de sua rotina. O “querer” verdadeiro exige renúncia, esforço e superação. Já o “querer” superficial é apenas um ideal vazio, uma ilusão que mantém o sujeito preso na mesma narrativa, sempre esperando que as circunstâncias mudem sem que ele mesmo precise mudar.


Sartre e a Má-fé: A Escolha de se Enganar


Jean-Paul Sartre introduziu o conceito de má-fé, que se refere à atitude de uma pessoa que finge para si mesma não ter escolha quando, na realidade, tem. Quando alguém diz que “não consegue” seguir uma alimentação saudável, que “não tem disciplina” ou que “não nasceu para isso”, está exercendo a má-fé.


A verdade é que sempre há uma escolha. Mas assumir isso significa se responsabilizar por suas decisões. E nem todos estão dispostos a encarar esse peso. É mais fácil culpar fatores externos — a genética, a cultura, a sociedade, a “falsa ciência” — do que admitir que a mudança está ao alcance, mas exige esforço.


A Síndrome do “Equilíbrio Conveniente”


Muitas pessoas confundem equilíbrio com permissividade. Acham que ser equilibrado significa nunca restringir nada, nunca dizer “não” a si mesmas. No fundo, essa visão de equilíbrio não passa de uma desculpa sofisticada para continuar presa a hábitos que não quer abrir mão.


O verdadeiro equilíbrio não é fazer tudo o que se quer, mas sim saber pesar os prós e contras de cada escolha. Quem entende isso para de buscar desculpas e começa a agir de forma consciente.


Libertando-se das Narrativas que Aprisionam


Se há algo que a psicanálise e a filosofia ensinam é que a mudança começa na consciência. Enquanto alguém estiver preso às próprias narrativas, justificando vícios e recusando-se a enxergar a realidade, continuará no mesmo lugar.


O primeiro passo para mudar não é encontrar a dieta perfeita, o treino ideal ou a estratégia infalível. O primeiro passo é parar de se enganar. É olhar para as próprias desculpas e perguntar: isso é realmente verdade, ou é apenas uma forma de evitar o desconforto da mudança?


A resposta para essa pergunta pode ser o início de uma transformação profunda — não apenas física, mas mental e existencial.