Vivemos tempos em que a verdade se tornou um fardo pesado demais para ser sustentado em público. Saber demais é risco. Expressar o que se sabe — pior ainda. Num mundo que venera a ignorância bem-humorada e a mediocridade cordial, o conhecimento é visto com desconfiança, e a lucidez, com hostilidade.


Essa dinâmica revela uma inversão perversa: transformamos o uso do cortex pré-frontal em transgressão social. O que deveria ser celebrado como evolução humana torna-se motivo de ostracismo. Criamos uma cultura onde o menor denominador comum dita as regras do jogo, onde nivelamos por baixo para que todos se sintam incluídos — exceto, ironicamente, aqueles que poderiam elevar o debate.


Não é a arrogância que incomoda — é a clareza. A firmeza de quem não se curva diante de egos frágeis. Preferimos a doçura inofensiva do tolo à nitidez incômoda do lúcido. A sociedade espera que o que trilha o caminho em busca da sabedoria se disfarce de ingênuo, que o que sabe algo alem dos medíocres peça desculpas por saber. Fingir humildade se tornou um código de sobrevivência para não ameaçar os que vivem à sombra da própria insegurança.


Há aqui um mecanismo psicológico profundo: o confronto com a própria limitação é uma das experiências mais dolorosas da condição humana. Quando alguém demonstra conhecimento superior, não está apenas compartilhando informação — está, involuntariamente, espelhando nossa ignorância. O reflexo natural é atacar o espelho, não examinar o que ele revela. Destruímos o mensageiro para preservar a mensagem que queremos ouvir sobre nós mesmos.


Jesus não foi crucificado apenas pela ousadia de se dizer o Filho de Deus. Foi rejeitado pela sua lucidez perturbadora, pela verdade que expunha feridas profundas demais para serem aceitas. Seu maior fardo talvez não tenha sido a cruz em si, mas a cegueira de quem o olhava — olhos incapazes de enxergar além do próprio orgulho. A cruz é símbolo da dor imposta àqueles que desafiam o conforto das ilusões.


O paralelo com Cristo não é fortuito. Ele representava tudo o que a sociedade de seu tempo temia: a dissolução das hierarquias estabelecidas, o questionamento das verdades convenientes, a exposição da hipocrisia institucionalizada. Sua morte não foi um acidente histórico, mas a consequência inevitável de uma sociedade que preferia eliminar a fonte de desconforto a confrontar suas próprias contradições.


Dois mil anos depois, o padrão permanece. Ainda crucificamos quem nos mostra o que não queremos ver. Pessoas, ideias, verdades — todas são descartadas quando ameaçam o altar onde repousa nosso autoengano. Condenamos o que não compreendemos, ridicularizamos o que nos desafia, destruímos o que denuncia nossas contradições.


Mas agora temos ferramentas mais sofisticadas. Não precisamos de pregos e madeira — temos o cancelamento, o isolamento social, a ridicularização sistemática. Construímos guilhotinas digitais e tribunais de opinião pública onde a sentença é proferida antes do julgamento. O método mudou; a essência permanece: eliminar aquilo que perturba nossa zona de conforto intelectual.


Julgar virou defesa. Condenar, reflexo. A humanidade continua fiel ao velho hábito de preferir o grito da multidão ao silêncio que convida à reflexão. E assim seguimos, empilhando cruzes sobre aqueles que ousam viver com os olhos abertos.


Existe também uma dimensão política nessa dinâmica. Sociedades que penalizam o conhecimento inevitavelmente se tornam mais controláveis. Quando o pensamento crítico é desencorajado, quando a lucidez é vista como ameaça, criamos terreno fértil para manipulação em massa. A mediocridade não é apenas um problema cultural — é uma ferramenta de controle social. Mantém-se o poder mantendo-se a população intelectualmente domesticada.


Talvez o verdadeiro veneno não esteja em parecer arrogante, mas em fingir não ver para continuar sendo aceito. A escolha, no fim, é entre a verdade que liberta — e isola — ou a ilusão que conforta — e aprisiona.


E aqui reside o dilema existencial de nosso tempo: em uma sociedade que premia a conformidade intelectual, ser autêntico torna-se um ato revolucionário. Cada pessoa que escolhe a lucidez sobre a popularidade está, consciente ou não, participando de uma resistência silenciosa contra a tirania da mediocridade. É uma escolha solitária, muitas vezes dolorosa, mas talvez a única que preserva a dignidade do pensamento humano.