A frase “Deus me livre dos junguianos” se popularizou com o tempo — embora não haja registro oficial de que Carl Gustav Jung a tenha dito exatamente assim. No entanto, essa expressão representa com precisão algo que ele de fato pensava: a crítica ao culto de personalidade, à idolatria intelectual e à repetição mecânica de conceitos sem vivência. Jung nunca quis formar uma seita, muito menos fundar uma nova religião psicológica. Seu trabalho não foi criar uma nova doutrina, mas abrir caminhos para a experiência direta com o inconsciente. Por isso, ele desconfiava profundamente daqueles que se intitulavam “junguianos” como quem se agarra a uma nova identidade para não pensar por conta própria. O próprio Jung dizia que não era junguiano. Ele convidava seus leitores e pacientes a viverem a jornada da individuação — um processo único e intransferível de tornar-se quem se é — e não a se tornarem imitadores de suas palavras. Ele acreditava que a psicologia deveria nascer da própria experiência psíquica, e não da citação de autoridade.


A armadilha da doutrina


Na prática clínica e acadêmica, é comum ver profissionais que se dizem junguianos, mas que adotam seus conceitos como verdades fixas — sem vivê-los, sem digeri-los, sem contestá-los. Muitos reproduzem mitos, arquétipos e estruturas simbólicas como se estivessem lendo um manual técnico. Jung detestava isso. Ele compreendia que o conhecimento psíquico exige coragem de olhar para dentro, não apenas cultura teórica. Por isso, defendia que o verdadeiro trabalho psicológico começa onde terminam os rótulos, os livros e as escolas.


A psicologia viva


A psicologia profunda, para Jung, é viva, em movimento, e não se dobra à padronização. O que ele propôs ao mundo foi um convite para o mergulho no inconsciente pessoal e coletivo, com total responsabilidade e autonomia. Por isso, é preciso cautela: ser “junguiano” não significa repetir Jung. Significa, talvez, seguir o que ele fez: escutar a alma, abrir espaço para o desconhecido e desenvolver pensamento simbólico a partir da experiência pessoal — e não como uma crença institucionalizada. Em um tempo de identidades prontas, repetir conceitos é fácil. Viver o processo é raro.


Se você é psicólogo, terapeuta ou buscador do autoconhecimento, essa reflexão pode ser essencial: você está usando a psicologia como ferramenta de vida, ou como escudo de identidade?


Jung não queria seguidores. Queria que cada um encontrasse o seu próprio caminho de volta para si.