Ao longo da história humana, o corpo sempre fez parte de um ciclo maior: nascer, viver, morrer e retornar à Terra. Esse retorno não era apenas simbólico, mas biológico, ecológico e funcional. O corpo humano participava do fluxo da matéria, da energia e da vida. Hoje, esse ciclo está profundamente alterado — e isso diz muito sobre o estágio da civilização em que nos encontramos.


O que chamamos de “adoecimento civilizatório” não se limita ao aumento de diagnósticos médicos ou transtornos mentais. Ele se manifesta de forma mais silenciosa e estrutural: na desconexão progressiva entre o ser humano, sua própria matéria e o planeta que o sustenta.


O corpo como ecossistema artificializado

O corpo humano não é um sistema isolado. Ele é um ecossistema vivo, dependente de microbiota, minerais, nutrientes, ritmos naturais e trocas constantes com o ambiente. O estilo de vida moderno — marcado por alimentação ultraprocessada, uso contínuo de fármacos, exposição a agrotóxicos, disruptores endócrinos e intervenções estéticas frequentes — altera profundamente esse ecossistema.


Essas mudanças não atuam apenas no nível físico. Elas modificam o microbioma, o metabolismo, a inflamação sistêmica e os mecanismos de autorregulação do organismo. O resultado é um corpo cada vez mais funcional, porém menos orgânico; mais controlado, porém menos integrado à biologia ancestral.


Até mesmo processos naturais, como a decomposição após a morte, passam a ocorrer de forma diferente. Não por um “efeito conservante” isolado de substâncias específicas, mas pela soma de tecidos inflamados, cargas químicas crônicas, microbiomas empobrecidos e ambientes funerários altamente artificializados. O corpo deixa de retornar plenamente à Terra como matéria viva e passa a se comportar, em parte, como resíduo.


Da matéria ao psiquismo

Essa ruptura material não acontece sem consequências psíquicas. O cérebro e a mente não existem separados do corpo. Alterações metabólicas, inflamatórias e nutricionais impactam diretamente a regulação emocional, a percepção de si e a experiência subjetiva da vida.


Observa-se, cada vez mais, um padrão de sofrimento que não se encaixa nos modelos clássicos de depressão ou ansiedade. Trata-se de um vazio funcional, um embotamento emocional, uma sensação difusa de desconexão e falta de pertencimento. Pessoas produtivas, socialmente adaptadas, mas internamente esvaziadas.


Quando o corpo deixa de ser morada e passa a ser tratado como objeto — moldado, corrigido, controlado — a psique acompanha esse movimento. O indivíduo passa a se organizar mais pela imagem, pela performance e pela validação externa do que pelo contato com seu núcleo interno. Surge um “eu” adaptado, eficiente, mas distante do self autêntico.


É nesse ponto que muitas pessoas usam a expressão “perda da alma”. Traduzindo para uma linguagem ética e psicológica: trata-se da perda de contato com o centro interno, espontâneo e integrado do ser. Não é misticismo; é dissociação progressiva entre corpo, emoção e sentido.


O impacto coletivo e planetário

O adoecimento não é apenas individual. Quando milhões de corpos deixam de cumprir sua função ecológica básica — inclusive no processo de retorno à Terra — o impacto se torna ambiental. Solos empobrecidos, contaminação química acumulada, aumento do consumo de recursos para conter, preservar e isolar aquilo que antes se reintegrava naturalmente.


A mesma lógica que tenta controlar o corpo, silenciar sintomas e otimizar a performance a qualquer custo é a lógica que explora o planeta sem regeneração. O corpo humano torna-se o primeiro território colonizado por essa mentalidade. O planeta, o segundo.


Uma questão ética, não ideológica

Refletir sobre isso não é rejeitar ciência, tecnologia ou avanços médicos. É questionar o modelo de civilização que rompe ciclos sem criar substitutos saudáveis. É reconhecer que saúde não é apenas ausência de doença, mas capacidade de integração — consigo, com o outro, com a Terra.


Talvez o maior sinal de adoecimento civilizatório seja este: quando nem o corpo humano consegue mais morrer e retornar de forma simples ao solo, algo essencial foi perdido no caminho.


Reconectar-se à vida passa, inevitavelmente, por reconectar-se à matéria, ao corpo vivido e à Terra que sustenta tudo. Sem isso, qualquer tentativa de saúde mental, emocional ou espiritual permanece superficial.