A atualização da NR-1 trouxe à tona algo que, na prática, sempre esteve presente no cotidiano das organizações, mas raramente foi tratado com a seriedade necessária: o risco psicossocial. Em ambientes de alta exigência, como hospitais, esse risco não se manifesta de forma abstrata. Ele aparece em afastamentos recorrentes, em quadros de exaustão emocional, em erros assistenciais, em equipes que se fragmentam e em profissionais que, aos poucos, perdem a capacidade de sustentar o próprio trabalho sem adoecer.

Durante décadas, a resposta institucional a esse fenômeno foi limitada. De um lado, normas, documentos e protocolos que garantem conformidade legal, mas pouco impacto real. De outro, abordagens psicológicas centradas apenas na escuta, no acolhimento ou na medicalização do sofrimento, frequentemente desconectadas do ambiente concreto em que esse sofrimento se produz. O resultado é conhecido: cumpre-se a norma, mas o adoecimento continua.

É nesse ponto que a psicanálise adleriana oferece uma contribuição fundamental — e ainda pouco compreendida. A chamada Psicologia Individual, desenvolvida por Alfred Adler, foi, por muito tempo, interpretada de forma equivocada como algo individualista ou centrado no “ego”. Nada poderia estar mais distante da sua proposta original. Para Adler, o termo “individual” não se refere ao sujeito isolado, mas ao ser humano como um todo indivisível. Um ser que não pode ser fragmentado em corpo de um lado, mente de outro e algo ainda mais profundo relegado ao campo da crença ou da espiritualidade.

A Psicologia Individual parte do princípio de que o ser humano é uma unidade viva, orientada por propósito, inserida em um contexto social e em constante relação com o ambiente. O sofrimento psíquico, nessa perspectiva, não é um defeito interno nem uma fragilidade moral. Ele emerge quando há uma ruptura entre o indivíduo, o sentido do que ele faz e as condições reais em que vive e trabalha. No ambiente hospitalar, isso se torna evidente. Profissionais não adoecem porque “não dão conta”, mas porque são submetidos, de forma crônica, a demandas que ultrapassam sua capacidade de adaptação física, emocional e biológica.

Essa visão rompe com a ideia de que saúde mental se resolve apenas com conversas ou intervenções genéricas. Ela exige olhar para o comportamento, para a forma como o indivíduo responde às exigências do meio e, sobretudo, para o significado que ele atribui ao próprio papel. Mais do que isso, exige reconhecer que esse processo não acontece apenas no plano psicológico. Ele se inscreve no corpo.

É aqui que a epigenética se integra de forma natural e coerente a essa abordagem. Hoje sabemos que o ambiente — incluindo estresse crônico, privação de sono, alimentação inadequada, iluminação artificial, exposição a poluentes e ritmos de trabalho incompatíveis com a biologia humana — modula a expressão dos genes. Não se trata de mudar o DNA, mas de alterar a forma como ele é lido e expresso. Dois profissionais submetidos às mesmas condições podem responder de maneira completamente diferente, não por força de caráter ou resiliência emocional, mas por diferenças reais na capacidade biológica de adaptação e recuperação.

Integrar epigenética à gestão de risco psicossocial não significa patologizar o indivíduo nem prometer soluções milagrosas. Significa reconhecer que não existe abordagem “one size fits all” quando falamos de saúde humana. Significa sair do discurso genérico de bem-estar e avançar para uma compreensão mais precisa de como o ambiente escreve sobre o corpo, o comportamento e a saúde mental ao longo do tempo.

Essa integração também resgata algo que foi progressivamente excluído do discurso científico ao longo do século XX: a dimensão mais íntima do ser humano. Aquilo que move cada indivíduo de dentro para fora e que recebe diferentes nomes conforme a linguagem, a cultura ou a tradição de quem observa. Alguns chamam de alma, outros de espírito, outros de Eu superior, consciência, essência, Deus ou força vital. Independentemente do nome, trata-se do eixo interno que dá sentido à experiência humana e orienta escolhas, comportamentos e limites. Ignorar essa dimensão não torna a abordagem mais científica; apenas a torna incompleta.

Quando falamos de uma NR-1 aplicada de forma madura, estamos falando justamente dessa integração. Primeiro, a organização do trabalho precisa ser ajustada para não adoecer quem sustenta o sistema. Depois, o suporte psicossocial precisa ir além do discurso e alcançar o comportamento e a capacidade de autorregulação. Por fim, quando necessário, a biologia individual deve ser considerada para que as intervenções façam sentido na realidade de cada pessoa.

Essa é a diferença entre cumprir uma norma e construir sustentabilidade humana dentro das organizações. Não se trata de eliminar o sofrimento — isso seria negar a própria condição humana —, mas de reduzir o adoecimento evitável, preservar a integridade do indivíduo como um todo indivisível e criar ambientes em que corpo, mente e aquilo que nos move de forma mais profunda possam coexistir em maior coerência.

Talvez esse seja o maior desafio da saúde do trabalho no século XXI: abandonar modelos fragmentados e aceitar que cuidar de pessoas exige, inevitavelmente, olhar para o ser humano inteiro.